23 de jun. de 2014

Nas batucadas dos nossos tantans....

Na Arquibancada: terapia do tambor


               Descendo da arquibancada para compartilhar um sentimento que ecoa no corpo, transpira na pele e retumba direto no coração. Estou falando do som dos instrumentos musicais e de toda a parafernália que "habita" as baterias de escolas de samba. Seus ritmistas e suas peças de trabalho são verdadeiros artistas ao serem acionados. 
               Por algum tempo, busquei descobrir o que mais me atraia no Carnaval. Seria beleza e originalidade das fantasias?? Desenvoltura e ginga dos passistas?? A empolgação e a afinação dos puxadores (ou intérpretes, como dizia o Jamelão) e seus volumosos grupos de harmonia?? Ou a criatividade do carnavalesco em desenvolver o tema proposto pelo temista?? Não. Descobri que o que mexe comigo mesmo é a verdadeira "explosão interna" de emoção e prazer ao ouvir o som das batucadas. O coletivo de instrumentos acionados harmonicamente produzem um efeito nas pessoas, quase indescritível. Não conheço ninguém que tenha ficado imóvel ao lado de uma cozinha de escola de samba. 
              Por questões logísticas e econômicas, não consegui acompanhar de perto a bateria do saudoso Mestre André (Mocidade Independente de Padre Miguel), suas ousadas paradinhas. Nem a do Mestre Ciça ou do Loro, do Salgueiro e tantos outros bambas do Carnaval carioca. Entretanto, estive muito perto da bateria do Mestre Caloca, na Praiana, seus instrumentos percussivos e seus sopapos. Dos talentosos Nery Caveira (Imperadores do samba) e Nilton Deoclides (Bambas da orgia). Por que referi os dois?? Não considero nenhum demérito não citar outros nomes, mas confesso que, NUNCA mais cruzou meus ouvidos o que estes "homis" faziam. Enquanto um introduzia e apresentava com charme o BOLERO de Ravel na vermelho e branco, o outro no Força e Luz, sentindo-se provocado vinha com arranjos de Barry White. Era muita categoria e talento no ar. 

           Atualmente, Porto Alegre seguindo uma tendencia que cresce no Brasil recebe o ressurgimento dos blocos de rua e cordões de sociedades e clubes. A função rola nos parques das cidades e agrega pessoas de diferentes origens. Eu já fiz a minha opção. Fui convidado para integrar a ZIRIGUIDUM Batucada Social Clube e, juntamente com professores, profissionais liberais, policiais, academicos, estudantes, donas de casa, funcionários públicos, pessoas comuns acionarmos nossos "brinquedos percussivos" e tomar as ruas num clima de euforia e descontração. Confesso que minha coordenação motora não ajuda muito, mas a paciencia dos mestres Márcio e Luiz Jaka favorecem muito o aprendizado. Acrescido com os demais parceiros das cordas do bloco a energia que rola é sempre garantida. 
             Sabem a endorfina liberada depois de um treino puxado na academia, ou uma reconfortante sessão de terapia?? Participar de qualquer função próxima a uma batucada tem a mesma função que um cartão de crédito, simplesmente NÃO TEM PREÇO. Meu carinho e respeito a todos os mestres de bateria do Brasil e, principalmente, aos da tribo - a dupla de Sandro Gravador e Brinco, Chiquinho, Biscui, Aruanda Jr, Boneco, Estevão, Guto e todos aqueles que não foram lembrados e que de alguma forma são os responsáveis pela alegria, descontração e energia nas quadras, ruas e avenidas. Simples. Arrebenta, bateriaaaaa!! 
                   Gostaram?? Então comecem hoje mesmo a batucar em qualquer instrumento, né mesmo?? Eu recomendo o CLUBE do Pandeiro do Zé Evand.ro. Coisa muito chique

13 de jun. de 2014

É namoro ou amizade?? Pode ser uma graça de Santo Antonio





                     Era um dia frio de julho, mais ou menos há 16 anos atrás, e o cenário musical brasileiro e suas diferentes manifestações musicais (sejam elas um rock nacional bem elaborado, uma sertaneja chorona, um rap "na lata", uma regional com conteúdo, uma popular comercial, uma MPB cheia de mensagem, etc) apresentava na cena um sambista gordo e de voz agradável que cantava pagodinhos do tipo "comuns e comerciais". Entrava no ouvido direto com seus refrões fáceis. O grupo era o  Exaltasamba e o cantor chamava-se Péricles. Pois foi ao som do sambinha "Namoro ou amizade", de autoria desconhecida que podíamos ouvir "...Acredito que já percebeu/Na amizade entre você e eu
Tá pintando uma diferença//Eu não sei o que aconteceu/Mas a minha intenção mudou/Se te via como amiga/Ou a dona do meu amor..." que minha história bacana de amizade, paixão e amor começou.      Lembra disso, Paty Venturela??
                     Por que a ordem das palavras amizade, paixão e amor?? Tentarei explicar. Por não acreditar em amor à primeira vista,  entendo ser necessário uma construção lenta e gradual. Primeiro atração física, depois a amizade. Neste caso pode ser invertido. Depois rola a paixão. Bem mais tarde o amor. Por que?? Cientificamente, o "Amor" intenso e com a mesma vibração o tempo inteiro pode causar problemas sérios. Por ser considerado um complexo fenômeno neurobiológico, baseado em atividades cerebrais que desencadeiam o desejo, a confiança, o prazer, a felicidade e a recompensa envolvida pela ação de mensageiros químicos chegam juntos para construir o amor de todos os dias. Duvida??Então acessa http://www.ciencia20.up.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=75:como-se-explica-o-amor&catid=12:perguntas-e-respostas  e elabora tuas considerações.
                     Muitos afirmam que, o dia 12 de junho (DIA DOS NAMORADOS) é uma data extremamente comercial onde rolam troca de presentes, afagos, jantares elaboradas, cinema, motel, viagens, torpedos, juras de amor, entre outras coisas. Possivelmente, alguns tenham seus motivos. Particularmente, acredito na aproximação das pessoas, seja na trégua, na reconciliação, no resgate (em alguns casos) e por que não nos "mimos e carinhos"?? Lembro que, num determinado ano, ligeiramente "descapitalizado" não tinha recursos para encomendar um grande arranjo floral, ou programar um jantar num restaurante chique, ou dois ingressos para a famosa ópera no São Pedro, ou uma jóia da Scarpini ou coisas do gênero. Caminhava na direção de casa, com a cabeça rodando para descobrir o que daria de presente à minha cara metade. Por desorganização financeira ou por não ter economizado não dispunha de quantia suficiente para presenteá-la com algo impactante. Cruzando um jardim florido de um condomínio luxuoso, não tive dúvidas. Pulei sobre as grades e extrai as flores do campo mais bonitas que já tinha visto. Passei no mercado e completei com uma barra de chocolate e uma dedicatória de próprio punho. Bagaceiro, não?? Não. Pura autenticidade. A vida é feita de sonhos, de projetos, de brigas, de reconciliações, de tolerância, de TPM, de chocolate, de cuecas no registro do banheiro, de café cappuccino, de viagem internacional, de abraço, de beijo, de lençol limpo, de frustração, de vibração, de idolatria, de cara feia e de aplausos. Tudo isso "reunido" num constante exercício de aprendizagem em relação à vida. Nem tão rápido como quem fuga, nem tão lento como quem provoca.
                    Paty: "Se algum dia tive dificuldades em entender teus estudos de Freud, Rogers, Luft, Gibran, Lacan, Jung ou outro teórico. Tenha certeza que compreendi quando não entendias muito bem minhas conversas sobre Adorno, De Masi, Romano de Santanna, Veríssimo, Amado ou outro autor. O que certamente nos console é que, temos a paciência de misturarmos a simplicidade das pequenas coisas com a contextualização das questões mais elaboradas. E assim podermos ensinar um ao outro como preparar uma caipirinha de limão siciliano, ou fazer uma simples canja, passar uma camisa de botão, escrever um parágrafo de uma carta. E vivermos de forma INTENSA e ARDENTE por muito tempo.
                    Podemos ser identificados como um contador de história e uma pessoa ansiosa. Porém, a física explica: DOIS PÓLOS DIFERENTES SE ATRAEM. E por que não se completam?? Te amo, minha namorada Patrícia e justifico o texto hoje, não pela data dos namorados, mas pelo Santo Casamenteiro.
 
             Beijão no centro...lembra disso??
 
                       Edinho Silva
 
Em tempo: E o Péricles continua cantando...Céu de Santo Amaro homenageando a todos os apaixonados  https://www.youtube.com/watch?v=YF8J2kJkbrI

10 de jun. de 2014

Ausência de ídolos




             Possivelmente, muito amigos torcerão o nariz para esta postagem, porém preciso confessar uma coisa: Refletir é preciso. SEMPRE!!
            Com toda a tristeza que abala a torcida colorada, gremistas, esportistas e simpatizantes da bola o que mais tem se falado nos últimos dias (lógico, depois das compras do Felipão no Super com a esposa, das cuecas do Neimar, entre outras coisas) é a trágica morte do ídolo rubro Fernando Lúcio da Costa - o Fernandão. Respeito a dor da família, dos familiares e amigos mas, tem uma coisa que está me inquietando. Não seria uma injustiça com outros craques que passaram pelo clube as tais homenagens, incluindo um boato que circula pela Cidade?? Estou falando sobre a troca do  nome do novo viaduto da Padre Cacique que irá se chamar Abdias do Nascimento - jornalista e artista plástico (ver http://premioabdiasnascimento.org.br/w/quem-foi-adbias-nascimento).
          Nada pessoal contra a homenagem ao jogador colorado, mas por que não uma sala no Beira Rio?? Uma piscina no parque gigante?? O portão 2?? Ou outro monumento?? Sinceramente, nem Gigantinho e, tampouco, o Viaduto. 
            Outro dia conversava com um amigo argentino, Ramon Alejandro, artista plástico do atelier 1, e ELE me alertava sobre o fato de Porto Alegre não possuir obras de artistas negros espalhadas por seu parques e pontos turísticos. Nos museus e pinacotecas também verifica-se esta triste realidade. Enfim, não sei ao certo quais os motivos?
           Quando soube que o viaduto charmoso, vizinho dos Imperadores poderia ser chamado de Abdias do Nascimento confesso que vibrei muito. Onde conheci o moço?? Num curso de formação para Lideranças negras promovido no ano passado pelo pessoal do DEDS/PROREXT/UFRGS. Ouvi várias intervenções de estudiosos, pesquisadores e contemporâneos do poeta Abdias.
            Sei lá...EU não trocaria o nome do Viaduto.
 
Edinho Silva - bastante triste, com a morte trágica do jogador, com a carência de ídolos das pessoas neste mundo louco e com a remota possibilidade de troca de homenageado.
 
Em tempo: Desculpa...Escurinho, os colorados não queriam te magoar!! Sim. Muitos dos que xingaram o Fernandão no portão 7 (ou 8??), hoje choram sua passagem. E acho que esqueceram de ídolos como tu!! Perdoe...ELES não sabem o que dizem.  
 
 
 
 




9 de jun. de 2014

Armazém em novos espaços - em Julho no canal 20 da NET - Rio Grande e Pelotas



            A imagem acima pode parecer pequena, porém a energia que rolou na tarde de sábado, 07/07/2014, durante a gravação do primeiro Armazém do seu Brasil no vídeo é imensamente grande. Do convite para participação e parceria no programa Galera, exibido no Canal 20 da Net para as cidades de Rio Grande e Pelotas passaram-se 50 dias de "costura verde e amarela".
           Sob a coordenação técnica do diretor executivo Júnior Santanna, as imagens geradas pelo profissional Leandro, apresentação do Zehito Lopes (titular apresentador do Programa) ao lado dos músicos Rogério Sete Cordas (violão) e Zé Evandro (Clube do pandeiro) pudemos receber o Zé Oliveira ou Zé do banjo como um dos primeiros convidados. Muito samba, papo animado, histórias engraçadas, cerveja gelada e boas vibrações contribuiram para que o Marcelo Silva e a equipe do Boteco Tche pudessem apresentar uma acolhida vibrante.
                Como irá funcionar o programa?? O GALERA será apresentado em 3 blocos. Um deles, será um quadro com a cara do Armazém do seu Brasil (agora em vídeo). Inspirado nos mais ousados programas de entrevistas com música o NOSSO Armazém será um pouquinho parecido com o Samba na Gamboa, o Sr. Brasil do Rolando Boldrin, os programas de auditório do Daltro Cavalheiro, enfim, uma "salada de frutas" com assinatura do Edinho Silva.
                 O formato?? Duas mesas próximas, um pequeno cenário montado, um ligeiro bate papo com o convidado e um samba ao som dos instrumentos dos BRASILEIROS - quarteto liderado pelo Rogério Sete Cordas (violão) e outros 3 músicos sambistas amigos do Armazém. Está previsto uma rotatividade na formação do grupo, assim garante-se uma troca maior de vivencias e conhecimentos em nome da Cultura Popular.
                 Quando vai ao ar?? Na primeira semana de julho, todas as terças-feiras, a partir da meia noite.
              E os amigos de Porto Alegre e o resto do mundo não terão acesso?? Sim, através das imagens disponibilizadas nas redes sociais.
             Conto com a participação de todos...via twiter, email (armazemdobrasil@gmail.com), facebook, interagindo nas ferramentas da rádio (www.radioestacaoweb.com).
                 Abraços e beijos a todos.

                   Edinho Silva    

Que tal?? https://www.youtube.com/watch?v=1PMN_tTnxf4&feature=share&list=UUVAivDuXxKKUr6xiOuGgWqQ&index=3

6 de jun. de 2014

Samba e amizade – uma conversa "olho no olho"


 

               A forma de aproximação a este moço foi pra lá de inusitada. Numa disputa de uma partida de futsal. Eu arbitrando e ELE defendendo a equipe tricolor no Grenal entre amigos. De quem estou falando?? José Carlos de Oliveira, ou o Zé do banjo, ou até mesmo o Zé "olho no olho". 
  
 
           A noite da tal partida, o cara destacou-se pelas jogadas de efeito e pelos gols marcados na zona do "agrião". Digo "na pescaria". Depois de muito deboche sobre os colorados, o Zé nem esperou o churrasco ficar pronto. Mal tinha terminado a partida, o "carinha" apanhou sua bolsa e saiu disparando para um outro compromisso inadiável. Uma roda de samba com outros amigos. Depois da família o que mais entusiasma o Zé do banjo? Uma boa e animada roda de samba entre amigos, algumas "bem geladas", costela gorda, bate papo e coisa do gênero.

          Sujeito simples, gremistão, de bom papo , comprometido com o trabalho e com solidariedade com seus pares, cumplicidade com sua família e muitas energias nos seus laços de amizade. É capaz de ofertar um brinde e um abraço a um amigo colorado, mesmo com a derrota do seu Grêmio. Por que?? Pelo jeito afetuoso com que trata seus pares. Testemunhei inúmeras vezes, ao lado do parceiro Samuka Guedes nas rodas de samba do extinto Pagode do Andaraí, onde eram recebidos crianças, senhoras, senhores, vozinhos, brancos, pretos, amarelos e quem quissesse chegar em nome de um bom samba e boas energias. Em movimentos como este onde todos chegam, tocam e cantam numa "mistura do bem" pra lá de especial. Bem no estilo Martinho da Vila e sua "Casa de bamba", onde todo mundo bebe e todo mundo samba.
           Ainda adolescente, com 16 anos de idade, inspirado por um vizinho que andava para todos os lados com seu violão começou sua história na música ouvindo com seu pai os clássicos de Jamelão, Noite Ilustrada, Silvio Caldas, Lupi, Nelson Gonçalves, Demonios da Garoa, entre outros classicos. Com esta mesma idade comprou seu primeiro violão e um pacote de livrinhos com partituras e dicas de como tocar. Sua mãe, dona Andresa muita vezes contribuiu com seu assobio a encontrar o tom certo dos sambas do filho sambista. Numa noite de setembro, já maiorzinho, decidiu ir até o bar Chão de estrelas. Chegando lá, deparou-se com "Chico Queixada", um cavaquinista dos bons conhecido nas rodas de Porto Alegre. O "homi" ficou espantado ao ver o senhor do cavaquinho tocar quase cochilando encostado na parede (quase dormindo), fazendo malabarismos com os dedos e as cordas. Saiu impactado e correu para algumas aulas com outra fera do samba e do choro da Cidade, o generoso Lúcio do cavaco (já falecido).
             Um dedo quebrado e mal curado, apresentou um outro instrumento ao Zé Oliveira. Por ter caracteristicas diferentes de um cavaco, que exige mais técnica para ser tocado, o banjo foi ocupando espaços na vida do "Olho no olho". E assim, adotou o instrumento como seu "fiel" por todos os lugares por onde passou. Dos muitos amigos (e seus banjos) que fez nas andanças, guarda um especial carinho o convivio com o Pedro Natel - Pedrão- do extinto grupo Bom Ambiente. Atualmente, nosso personagem "sacode" as tardes de sábado na companhia do Paulinho do Banjo e de todos os amigos que quiserem chegar na Casa do Cachorro, na Cidade Baixa. É por lá, que o senhor Ciríaco, receb o Zé e quem quiser chegar. Duvidei um pouco e perguntei ao Zé: "Meu caro, tenho um amigo que ganhou uma cuica de presente e gostaria muito de fazer um samba lá no tua roda. A do Cachorro. Seria possível?? O cara respondeu prontamente: "Mas é óbvio, Edinho. Pode chegar com força, sem bater na porta. O samba possui linguagem universal e todos são acolhidos. Da percussão mais ousada, o metal mais bonito, das cordas mais afinadas. Vale tudo!! Outro dia, até um "indio paraguaio" fez samba conosco ao som do seu instrumento de bambu". Falei pouco?? Falei, nada...O Zé Oliveira tem história para uns 3 Costelões 12 horas e muitas geladas.
 
Era isso. Simples, como um banjo afinado.
 
Edinho Silva

4 de jun. de 2014

Meus amigos gordos



Meu passeio favorito
                Muita gente não gosta de visitar o  lugar onde moram os “bichinhos da floresta”. Eu adoro. Sabe que lugar é este?? O Jardim Zoológico. Eu já fui lá umas 3 vezes: com minhas tias, com o colégio e com o pessoal da Igreja. Gosto de tudo, mas o que mais me atrai é o espaço onde ficam os elefantes. Aqueles bichos enormes e “gordos” que brincam, se acariciam, chegam perto uns dos outros e acredito até que, se tivessem ou se pudessem trocar abraços, o fariam. Abraço. Coisa bem boa, abraçar e ser abraçado. Eu adoro receber abraço. E vocês??
                Depois que meus pais se separaram,  minha mãe foi morar  em outra casa, com outra família. Senti muito, principalmente porque ELA me “preservou” do seu abraço. Desde sua partida, há 6 anos nunca mais a vi. Tenho saudade dela e do seu abraço. Será que todos os pais quando separam levam embora seus abraços e sua vontade de chegar perto de filhos?? Sei lá...
                Minha madrasta também gosta de abraçar as pessoas. Vive abraçando sua filha e se pai quando nos visita. O vô “chato” da minha irmã. Por que?? Fica fazendo piadinha comigo. Vive dizendo que, “saco de batata e de cimento só fazem sucesso na fruteira ou na madeireira”. Todos acham graça. O avô, a neta e a minha madrasta. As vezes chego a pensar em contar para meu pai, mas tenho medo de aborrece-lo e fazer ELE bigar com a tia (?). Se ELA vai embora como foi minha mãe, ELE volta a beber e todos sofrem e choram na minha casa.
                Minha vida no Colégio também não é muito fácil. Os mesmos que me pedem um pedaço de bolo quando eu levo de merenda, ficam do fundo da sala provocando e ofendendo com expressões do tipo “Saí pra lá, elefante!”, ou “Eu não quero jogar futebol ao lado de uma baleia fora d’água”. Outro dia, minha professora de Ciências falou que, leu numa revista que as pessoas GORDAS não gostam de abraços ou que outros aproximem-se. Não é meu caso. Ou não sou gordo, como penso? Ou a força e o respeito pelos diferentes foram esquecidos?? Sei lá...EU adoro ser abraçado. Mesmo com 12 anos, chego a sonhar em crescer um pouco mais e ir morar com meus amiguinhos de tromba. Lá no Zoológico. Verdade!!  Já pensei mais de uma vez em arrumar minhas malas e fugir de casa. Deixaria um bilhete ao meu pai que, mesmo sem saber ler pediria para algum colega da obra ler a mensagem. E a minha madrasta e sua filha?? Nem me importo. Ou melhor, talvez ELAS nem notassem que fui embora. As vezes ELAS não falam comigo mesmo.
                E por que o Zoológico como nova casa??  Simples. Lá pelo menos, TODOS se respeitam. Sendo de conhecimento público que o leão é “rei do pedaço”, os jacarés se rastejam, as girafas observam tudo do alto e sobretudo, a família dos gordos elefantes NÃO SE AFASTAM NUNCA.

                                                                                                                                             Edinho Silva – maio/2014 

28 de mai. de 2014

Minha cor preferida

      

O céu hoje estava azul. Pelo menos é o que todos falam pela ruas e nas paradas de ônibus. Coisa boa pelo menos não vai chover no dia em que minha mãe me levará ao médico, doutor Simão,  meu neurologista. Quando tenho sorte, minha visita demora só 90 dias. Minha mãe diz que, as “gurias do posto” deram uma força. Daí fica mais perto uma consulta da outra. Melhor para minha mãe, assim conversa com mais gente além da dona Maria, nossa vizinha e mãe da Verinha, dona Sara, a benzedeira da vila e o tio Romeu, amigo da minha mãe.  Meus remédios podem esperar, mas minha mãezinha merecia tempo menor de espera. O doutor  não trata  ELA com os mesmos remédios. Acho até que nem dá remédio, só conversa mesmo. Minha mãezinha diz que  o doutor é um pouco “psico” alguma coisa que a Verinha não sabe escrever direito. Ela é uma mulher bem legal, mas não tem tempo de se divertir, arrumar um namorado ou fazer outras coisas. Quando não tá trabalhando, tá me cuidando. A Verinha sabe escrever a palavra “ terapia”. Acho que é isso que, minha mãe falou para a mãe da Verinha. “O doutor trata do Ziquinho  e faz terapia comigo. Nem é especialista, mas entende minhas fraquezas”. Coitada, nem tem amigo. Dá para contar nos dedos.
Depois que minha vozinha saiu de casa e nunca mais voltou, pouca gente fala com ELA. Meu pai foi morar em outra casa quando eu era bem pequeno. Aliás, eu continuo pequeno, ainda sem movimentos nos braços e pernas e com dificuldades de me expressar.  Será que foi por isso que ELE foi embora??
O tio Romeu,  irmão do meu pai e meu padrinho me presenteou com uma roupa de bebê na cor vermelha. Essa cor é do seu time do coração. Será que coração tem cor?? Faz muito tempo que não vejo meu padrinho, mas se ELE aparecer te juro Verinha: “Vou perguntar se ELE nunca mais viu meu pai??” Irmão, pai, avó e mãe é legal quando fica perto da gente, né mesmo?? Meu irmão é  legal mas está sempre na rua. Nunca está em casa. Se não fosse a Verinha que me cuida pra minha mãe trabalhar, acho que ficaria sozinho. E minha vó?? Saiu para passear e nunca mais voltou. Parece que foi morar no céu. E se lá for azul deve ser legal também. Ela era boa pessoa e me apresentou a cor preta. Isso mesmo. Chegava cansada do trabalho e corria para me acariciar, dizendo “Cade a coisinha preta da vó??”. Sempre achei que preto era uma cor bacana, mas um dia ouvi a Verinha comentar com minha vó as palavras que saiam da boca da dona Jussara, mulher do dono do boteco da vila. “Não gosto daquela gente preta! Se dependesse de mim não venderia mais para ELES”. Minha vó quando ficou sabendo, NUNCA mais entrou lá. Na verdade, EU também não entrava lá. Aliás, nem sei ao certo os lugares onde já entrei. Foram poucos, mas não lembro. Nunca sai sozinho de casa. E a cor branca?? Não gosto nem de lembrar. Dá uma saudade braba da minha vó. Enquanto fazia minha comida, diferente do resto da família (eu não posso comer qualquer coisa.     
O dr. Simão proibiu e recomendou coisa “um pouco pastosa” para eu poder mastigar) a vozinha ouviu uma música que, quando lembro, choro bastante. Como era? Mais ou menos assim “Bandeira branca, amor...não posso mais!!” Toda vez que toca a música, eu choro sozinho.
E a minha cor preferida? Quase que esqueci. É a amarela ou amarelo. A cor do quindim, da fruta preferida e do vestido que minha mãe veste quando vai na festa religiosa, uma vez por mês. Mas gosto desta cor por outro motivo. É a cor do assento dos bancos onde as velhinhas, as grávidas e pessoas devem sentar. É fácil sentar nestes lugares?? Claro que não. Minha mãe está certa, as pessoas chegam a fingir que dormem só para não levantar e conceder o lugar. Minha mãe já reclamou para a cobradora, mas não tem  jeito. Ninguém se sensibiliza. Escreve aí, Verinha: “Se eu pudesse mexer meus braços, te juro que tirava as pessoas na base do tapa”. Então minha cor favorita é o amarelo. Ah, ia esquecendo acho que é melhor parar, pois a Verinha deve estar muito cansada. Gostaram das palavras no texto?? Palmas para a Verinha, afinal foi ela que ficou mais de 3 horas tentando me entender. Aliás, depois da minha mãe, acho que é só ELA que me compreende. E se EU pudesse bateria palmas para as três. Minha vozinha, minha mãe e a Verinha.

                                                Edinho Silva – maio/2014