28 de mai de 2014

Minha cor preferida

      

O céu hoje estava azul. Pelo menos é o que todos falam pela ruas e nas paradas de ônibus. Coisa boa pelo menos não vai chover no dia em que minha mãe me levará ao médico, doutor Simão,  meu neurologista. Quando tenho sorte, minha visita demora só 90 dias. Minha mãe diz que, as “gurias do posto” deram uma força. Daí fica mais perto uma consulta da outra. Melhor para minha mãe, assim conversa com mais gente além da dona Maria, nossa vizinha e mãe da Verinha, dona Sara, a benzedeira da vila e o tio Romeu, amigo da minha mãe.  Meus remédios podem esperar, mas minha mãezinha merecia tempo menor de espera. O doutor  não trata  ELA com os mesmos remédios. Acho até que nem dá remédio, só conversa mesmo. Minha mãezinha diz que  o doutor é um pouco “psico” alguma coisa que a Verinha não sabe escrever direito. Ela é uma mulher bem legal, mas não tem tempo de se divertir, arrumar um namorado ou fazer outras coisas. Quando não tá trabalhando, tá me cuidando. A Verinha sabe escrever a palavra “ terapia”. Acho que é isso que, minha mãe falou para a mãe da Verinha. “O doutor trata do Ziquinho  e faz terapia comigo. Nem é especialista, mas entende minhas fraquezas”. Coitada, nem tem amigo. Dá para contar nos dedos.
Depois que minha vozinha saiu de casa e nunca mais voltou, pouca gente fala com ELA. Meu pai foi morar em outra casa quando eu era bem pequeno. Aliás, eu continuo pequeno, ainda sem movimentos nos braços e pernas e com dificuldades de me expressar.  Será que foi por isso que ELE foi embora??
O tio Romeu,  irmão do meu pai e meu padrinho me presenteou com uma roupa de bebê na cor vermelha. Essa cor é do seu time do coração. Será que coração tem cor?? Faz muito tempo que não vejo meu padrinho, mas se ELE aparecer te juro Verinha: “Vou perguntar se ELE nunca mais viu meu pai??” Irmão, pai, avó e mãe é legal quando fica perto da gente, né mesmo?? Meu irmão é  legal mas está sempre na rua. Nunca está em casa. Se não fosse a Verinha que me cuida pra minha mãe trabalhar, acho que ficaria sozinho. E minha vó?? Saiu para passear e nunca mais voltou. Parece que foi morar no céu. E se lá for azul deve ser legal também. Ela era boa pessoa e me apresentou a cor preta. Isso mesmo. Chegava cansada do trabalho e corria para me acariciar, dizendo “Cade a coisinha preta da vó??”. Sempre achei que preto era uma cor bacana, mas um dia ouvi a Verinha comentar com minha vó as palavras que saiam da boca da dona Jussara, mulher do dono do boteco da vila. “Não gosto daquela gente preta! Se dependesse de mim não venderia mais para ELES”. Minha vó quando ficou sabendo, NUNCA mais entrou lá. Na verdade, EU também não entrava lá. Aliás, nem sei ao certo os lugares onde já entrei. Foram poucos, mas não lembro. Nunca sai sozinho de casa. E a cor branca?? Não gosto nem de lembrar. Dá uma saudade braba da minha vó. Enquanto fazia minha comida, diferente do resto da família (eu não posso comer qualquer coisa.     
O dr. Simão proibiu e recomendou coisa “um pouco pastosa” para eu poder mastigar) a vozinha ouviu uma música que, quando lembro, choro bastante. Como era? Mais ou menos assim “Bandeira branca, amor...não posso mais!!” Toda vez que toca a música, eu choro sozinho.
E a minha cor preferida? Quase que esqueci. É a amarela ou amarelo. A cor do quindim, da fruta preferida e do vestido que minha mãe veste quando vai na festa religiosa, uma vez por mês. Mas gosto desta cor por outro motivo. É a cor do assento dos bancos onde as velhinhas, as grávidas e pessoas devem sentar. É fácil sentar nestes lugares?? Claro que não. Minha mãe está certa, as pessoas chegam a fingir que dormem só para não levantar e conceder o lugar. Minha mãe já reclamou para a cobradora, mas não tem  jeito. Ninguém se sensibiliza. Escreve aí, Verinha: “Se eu pudesse mexer meus braços, te juro que tirava as pessoas na base do tapa”. Então minha cor favorita é o amarelo. Ah, ia esquecendo acho que é melhor parar, pois a Verinha deve estar muito cansada. Gostaram das palavras no texto?? Palmas para a Verinha, afinal foi ela que ficou mais de 3 horas tentando me entender. Aliás, depois da minha mãe, acho que é só ELA que me compreende. E se EU pudesse bateria palmas para as três. Minha vozinha, minha mãe e a Verinha.

                                                Edinho Silva – maio/2014