14 de dez de 2018

Cheio de balanço ao som da guitarra de Alexandre Rodrigues


                                                                                       Acervo pessoal do artista
         


 Posentão... 

            Quem no Brasil, que simpatiza com samba e suingue, nunca cantarolou ou dançou ao som de “Nega ângela”, na voz de Neguinho da Beija Flor? Não conhecem? Claro que já ouviram. Seria mais ou menos assim: “...Eu prefiro acreditar que é mentira...É brilho demais para um só olhar...Hoje eu vi um nego anjo, nega Angela...”
            Ao lado do carioca Serginho Meriti, o gaúcho, Alexandre Rodrigues, compôs o hit nacional que percorreu o tempo e o Brasil de Norte a Sul. Natural de Porto Alegre, com mais de quatro décadas, atuando como produtor musical, arranjador  e compositor  Alexandre permanece até os dias de hoje com sua energia e vibração na cena musical da Capital gaúcha.
            Inquieto o músico gaúcho Alexandre Rodrigues espalhou suas composições, pelo Brasil afora na voz de outros intérpretes brasileiros. O paulista Bebeto “balançou” o País com composições suas como “Minha preta” e “Nega Olivia”; os cariocas Fernanda Abreu e Waguinho com regravações do suingue “Kid Brilhantina”; Wilson Simonal, Originais do Samba, Neguinho da Beija flor, Branca di Neve, e tantos outros nomes da MPB.
Nos anos 60, na companhia de músicos parceiros gaúchos deu o pontapé inicial na criação de um Grupo musical chamado “Pau Brasil”, principal responsável  por um ritmo bem brasileiro que marcou uma época na cena cultural do País.
O músico Alexandre Rodrigues acompanhado por seus parceiros musicais Bedeu, Luis Vagner e seus outros parceiros “incendiavam” os bailes com o ritmo vibrante e dançante que reunia melodias fortes, cheias de balanços e gingados associados ao rock in roll misturados ao balanço brasileiro de samba, com ritmos, balanços e movimentos artísticos que deram forma ao que chamamos de música popular próximas às populações afro e afro-diaspóricas – samba(s), rock(s), blues, baiões, tango(s), salsa(s) e suas derivações. Assim era identificado o samba rock.
Na semana passada, o suingueiro Alexandre foi responsável por reunir artistas e músicos dos diferentes gêneros musicais do Rio Grande do Sul para uma ação solidária em prol de uma entidade assistencial local com uma apresentação musical coletiva de marcar época num dos mais teatros públicos de Porto Alegre. O teatro Renascença.   A história do surgimento do samba rock no Rio Grande do Sul é muito interessante e, oportunamente, retorno para apresentar um pouco mais sobre o tema.
Abraço, Edinho Silva

Bar Amarelinho - o mais puro e genuíno buteco de Porto Alerge

     Bar Amarelinho - rua Brasiliano de Moraes, 44 - IAPI - Porto Alegre         Imagem: Acervo do bar 



          Posentão...

          Depois das temakerias, dos pubs e das barbearias a vida de Porto Alegre ganhou novos espaços de botequins e "butecos". Espaços decorados, louças bacanas, chopp e pratos refinados transformam e "glamourizam" tais ambientes. Confesso que até frequento, mas com um freio de mão puxado.
Acho muita pompa e pouca originalidade. Nem falo na questão cultural, pois neste quesito, na minha opinião  muitos ficam devendo algumas coisas.
          Outro dia, fui conhecer o Bar Amarelinho (rua Brasiliano de Moraes, 44 - IAPI - Porto Alegre) e o "Samba do Bom Sujeito", projeto cultural do meu parceiro Atyla Souza, que reune amigos, entre ESTES, sambistas especiais como o Nego Lom "Samba Quente" e o Dédo Pereira (Rogério Sete Cordas) numa animada roda de samba às sexta-feiras.
          Mas e o lugar, o tal Boteco com a VERDADEIRA CARA e energia de butiquim?? Uma maravilha. O espaço é do tamanho ideal. Pequeno, mas extremamente aconchegante. Mesas e cadeiras tomam conta das calçadas quando o espaço interno enche. E o cardápio? LEGITIMA comida de boteco. Saborosa, ousada, diversificada e com preços justos. Se o cliente desejar um naco de linguiça frita com acompanhamento de cubos de queijo, ou azeitonas pretas, iscas de filé, bolinhos de arroz e as mais originais ofertas de comidinhas leva em pouco tempo. Ovo cozido e sanduiche de mortadela, nós encontramos?? Lógico. É só pedir para a equipe do seu Enio (o proprietário) que está na mão. E as bebidinhas?? Sempre na temperatura ideal e com preço justo, poderemos encontrar as "berejas" tradicionais, as nobres e uma "carta de artesanais bem bacana.
           E a cachacinha da casa?? Claro. Em Salvador, no Pelourinho existe uma cachaçaria bem famosa (Cravinho)  que apresenta como carro chefe suas aguardentes. No AMARELINHO existe uma cachacinha de "beber de joelhos".  O meu parceiro Luiz Lara me acolheu com uma mostra da bebidinha da casa, inesquecível.
           E neste lugar, na companhia desta pessoas, no próximo dia 21 de dezembro de 2018, a partir das 20h, celebrando o Dia Nacional do Samba (afinal coisas legais precisam ser festejadas TODOS OS DIAS) o Samba do Bom Sujeito recebe pela primeira vez o Armazém do seu Brasil, em formato acústico. Com a cenografia, os "Brasileiros" (Nego Izolino, Vini Dupan e Dédo Pereira), as resenhas e os sambas de "nego véio" de todos os dias.
          O investimento cultural é R$5,00 (cinco reais) único. Docinho, não? 
          E daí, vamos cair dentro?

                       Edinho Silva

Energias boas na avenida – um pouco de poesia


                                                       Acervo pessoal do Grupo Puro Asthral - Revellion 2016

Para tristeza de muita gente, o Carnaval de Porto Alegre no ano de 2018 sofreu um duro golpe. Por diferentes motivos (que prefiro abordar num outro momento) os foliões e simpatizantes da maior festa popular do País – o Carnaval  não puderam exibir suas fantasias, enredos e euforias neste ano.
Não teve passista, nem mestre-sala, nem ritmista, porta-bandeira, nem instrumentos e, tampouco arquibancadas para os que costumam aplaudir a “ópera do povo” que é a folia de Momo.
A tristeza abre espaço para reverenciar um grande sambista e compositor de sambas enredos do Estado. O Rio Grande do Sul ao longo dos tempos, foi celeiro de talentosos compositores, porém afirmo, com letras garrafais, o mais impactante samba de exaltação à uma Escola de Samba gaúcha foi o  compositor Wilson Nei – o poetinha do Sul, como é conhecido por gente que entende de samba nestas regiões. Aos 15, compôs a primeira obra. E não parou por aí.
Com fortes ligações aos Imperadores do Samba, umas das tradicionais escolas de samba da Capital Porto Alegre, o diretor de harmonia, violonista, compositor e intérprete Wilson Ney dos Santos percebendo o grande entusiasmo dos carnavalescos vermelhos e brancos (as cores da agremiação) compôs o  samba de quadra definitivo da Escola, onde destaca em “Convite ao Povo” os seguintes versos: “Povo meu/ povo meu/Ainda resta um lugar na nossa Escola/desça da arquibancada e vem sambar no Imperador/ Pois além da alegria também existe amor/. Um canto que inundava a avenida de desfiles e contagiava os milhares foliões da ocasião independentes de Agremiação carnavalesca. Imagens eletrizantes que os apaixonados pela Cultura Popular registravam..
Filho de um sapateiro com uma dona-de-casa e mais novo entre seis irmãos, Wilson Ney começou a trilhar o caminho da música na Chácara das Pedras, bairro popular em Porto Alegre. Aos 13 anos, já tocava violão com o grupo sambista “Povo meu”. Sua estreia no Carnaval veio em 1971, quando foi convidado a compor um samba de exaltação para a Sociedade Floresta Aurora. Samba que, aliás, foi “extraviado”. Antes de apresentá-lo à sociedade, Wilson Ney mostrou aos Acadêmicos da Orgia, que gostaram e acharam que o samba deveria ser para uma escola, e não para um bloco.
Considerado um dos grandes poetas do samba gaúcho e autor de mais de 500 obras, Wilson Ney ultrapassou os limites do bairro na zona norte de Porto Alegre e conquistou fama nacional, sendo gravado por Neguinho da Beija-Flor, Elza Soares, Dominguinhos do Estácio, Leci Brandão e Alcione, entre outros.
Ao completar “algumas dezenas de anos de carreira” traz na sua bagagem autoral um clássico samba do cancioneiro gaúcho do gênero intitulado “Fogo de palha” (1978) identificado pelo refrão forte e apaixonado: “Vá, sou o primeiro a lhe dar a mão ...Agora que eu quero ver...Se eu ou se você estava com a razão...Se foi fogo de palha ou não” A carreira do compositor nada tem a ver com o título de sua composição. Sua inspiração nunca foi passageira. Nem o seu talento.
Assinou ao longo de sua carreira muitos sambas-enredo de escolas como Imperadores do Samba, Acadêmicos da Orgia, Beija-Flor do Sul, Império da Zona Norte e Copacabana. Foi tema enredo dos Fidalgos e Aristocratas e passou pela direção de harmonia da maioria das entidades carnavalescas locais.
Torcendo que o Carnaval de Porto Alegre, meu, do Wilson Ney e de tanta gente  possa renascer, a avenida ganhar vida e as arquibancadas lotarem. E por que não esvaziar, para sambar com os Imperadores, os Bambas, a Leopoldina, a Restinga, a Praiana, o Império, a Vila do Iapi, a Samba Puro e todas que desejarem sambar?
Até breve, 

Edinho Silva, do Armazém


Música e fé a serviço da arte – um pouco de Deborah Rosa


                                                                                                               Acervo pessoal da artista

Posentão...
A religiosidade do brasileiro pode ser considerada um dos ingredientes que amenizam as agruras da vida moderna. Pensando nisso fui atraído por um flyer de divulgação de um show temático que ocorreria na Companhia de Arte, um simpático espaço cultural localizado no Centro Histórico de Porto Alegre.
Tratava-se do show da cantora santa-mariense Deborah Rosa intitulado “Samba & Saravá”, uma mistura ousada agregando ao samba um ritmo e uma força inconfundível abrangendo a obra de cantoras, compositores e compositoras brasileiras com ênfase no afro religioso e, acima de tudo, na estética de culto com seus "pontos", "rezas" e misticismos. Assim a cantora, ao lado dos músicos Daniel Rosa, Ricardo Vivian e Diego Ciocari apresentou ao público presente um repertório com uma duração de quase duas horas. 
Mas afinal de onde surgiu a cantora Deborah Rosa, dona de uma voz firme e uma capacidade de emocionar ao “interpretar” uma música?  Deborah de Freitas Rosa, seu nome de batismo, herdou dos pais o gosto pela artes (música, plásticas, teatro e literatura). Em relação à música suas influências foram os discos de vinil da coleção do pai, onde grandes cantoras brasileiras como Clara Nunes, Angela Maria, Ivone Lara, Maria Bethania, Amelinha e tantas outras entoavam seus cantos e marcavam a infância da cantora gaúcha.
Com uma trajetória que ultrapassa duas décadas de trabalho e contribuição para a cena musical do Rio Grande do Sul a cantora nascida na cidade gaúcha Santa Maria, reconhecida por sua população universitária, após circular com sucesso pela música nativista, com participação destacada em muitos festivais regionalistas, migrou para outra áreas. Assim a profissional das Relações Públicas graduada pela Universidade Federal de Santa Maria, desenvolveu experimentos artísticos em outros segmentos  como o Jazz e a música negra litorânea do Rio Grande do Sul.
Inquieta, nos últimos tempos, a cantora migrou suas atenções para o universo do Samba e com isso aprofundou suas pesquisas e buscas de maior sintonia na arte e obra reconhecida internacionalmente. Nesta fase de sua vida, um momento marcante em sua carreira foi o show de abertura da cantora maranhense Alcione, no palco de Santa Maria.
Enquanto seu sonho de realizar um Musical, com todo o zelo que sempre teve com seus Projetos Culturais, a cantora Deborah Rosa segue cantando e encantando os espaços pelo Sul do País. E com sua fé e trabalho segue resgatando e difundindo “os saberes, falares e cantares” que envolvem as ancestralidades e as matrizes africanas que moldaram nossa Cultura Brasileira.
Forte abraço

                            Edinho Silva, direto do Armazém e dos Pampas