A herança negra e indígena que já não cabe mais embaixo do tapete



     
Recém-chegado a Bagé como novo morador, é difícil tirar qualquer conclusão sobre a região, mas muito recentemente, tenho percebido nas redes sociais o incômodo com uma certa glamourização das charqueadas com a qual já tive contato por aqui. Basicamente, o discurso sobre a origem da região da campanha são marcados por dois grandes fatores: a fronteira e as guerras, mas a experiência da cidade parece dizer outra coisa: em primeiro lugar, ao andar pela cidade, os traços da ancestralidade indígena e negra no rosto das pessoas é gritante. Lar dos índios pampeanos (charruas e minuanos, entre outros), e um importante centro de concentração de escravos (trabalhando nas charqueadas) e em pequenas propriedades. Em segundo lugar, a arquitetura datada do início do século XX que ainda marca muito o centro da cidade nos faz deparar constantemente com o passado escravocrata. Procurar apartamento em Bagé é se deparar com uma enorme diversidade de formas de manter a empregada longe da circulação do restante da casa. Nos prédios mais antigos cujos apartamentos seguem sendo oferecidos pelas imobiliárias, o “quarto de empregada” é praticamente obrigatório (nome dado a um cômodo minúsculo no qual a empregada doméstica, além de dormir guarda seus pertences. É muito comum que esses quartos possua).
Imediatamente ligado a esse quarto estão a cozinha (minúscula, geralmente. Comportando poucas pessoas) e a “área de serviço” (onde, geralmente está o tanque de lavar roupa e o “banheiro de empregada” que, minúsculo, deve servir para necessidades fisiológicas e banho. Como eu não sei). Toda essa área que envolve serviços domésticos de limpeza e cozinha é comumente separada por longos corredores que dividem as casas em dois eixos muito claros: o de convivência entre os patrões e a empregada. Não estou descrevendo características que aparecem em um ou dois apartamentos nem de todos que visitei. A generalização não se aplica sem ressalvas, mas procurar apartamento em Bagé (já tendo procurado em muitas outras cidades em minha vida) foi uma experiência diferente. Primeiro sentido que há uma forma de organizar os cômodos muito diferente do que eu já conhecia e, posteriormente, comparando os diferentes apartamentos e compreendendo que muitos deles possuem uma lógica geral uma lógica arquitetônica que é simbólica de como a sociedade se organizava. Um modelo arquitetônico que é o correspondente urbano à divisão entre casa grande e senzala.
Alguns meses atrás, repliquei um post nas redes sociais sobre a quantidade de motéis chamados "Senzala" pelo Brasil e o quão absurdo seria se houvesse algo parecido chamado "campo de concentração" ou "holocausto" hoje em dia na Alemanha, Polônia ou Israel. Em outro momento, me deparei com notícias de pessoas que, conscientes da história de escravidão que o lugar carrega, se negaram a tirar suas fotos de formatura nas charqueadas de Pelotas.
O Brasil foi construído na base das relações abusivas e do estupro de indígenas e pretas por bandeirantes (os caçadores de escravos fugidos e ladrões que o Brasil homenageia incansavelmente) e religiosos e na imensa distância social que separa ricos de pobres. Nada mais simbólico do que o nome Senzala ser dado a um motel ou coroar o diploma de ensino superior (no Brasil, um grande símbolo de ascensão social) nas charqueadas. É como se sentir um senhor na Casa Grande como nos velhos tempos.
Enquanto um número espantosamente grande de pessoas no Brasil se esforça para narrar a sua ancestralidade iniciando com algum bisavô que desembarca da Europa, a verdade é que a conta não bate. Segundo as estimativas do projeto “Slave voyages”, o número de negros escravizados que vieram para o Brasil é equivalente ao número daqueles que vieram para todo o restante da América (incluindo EUA e o Caribe) e o foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão. Se todos que contam a sua história como se seus ancestrais não tivessem responsabilidade nenhuma na escravidão brasileira estivessem realmente falando a verdade, o Brasil colonial e no início da República seria um lugar praticamente inabitado.
Qualquer pequeno esforço de montar uma árvore genealógica aponta sempre uma indígena, um mulato, um negro, um filho ilegítimo de uma relação da qual não se gosta de comentar (você nunca desconfiou daquele pretinho ou mulato que era criado "como se fosse da família"?). A minha bisavó foi escravizada e, isso, infelizmente é só o pouco que eu sei, já que os registros são tão difíceis de se conseguir. Eu sei que essa história está diretamente relacionada a mim. E você? Já aceitou que passar a noite em um motel chamado Senzala ou bater foto de formatura nas charqueadas é uma forma de desrespeitar alguns dos seus ancestrais?
 
 
 
 
 
 

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