23 de set de 2011

Aeroporto em festa


         
     Alguns amigos meus e do Zé Prettin integravam um conhecido grupo de danças populares de Porto Alegre. Certa ocasião reuniu umas economias, fez alguns contatos, preparou figurino, "lapidou" coreografias, ajustou os passaportes e rumou além fronteiras. Compromissos marcados, a turma desembarcou no aeroporto de Ruzyne, em Praga para a participação de um festival de arte, cultura e danças naquele acolhedor lugar. O grupo não era muito numeroso, mas contava com a simpática e enérgica participação do Mário "Gato" e seus irmãos.                                                
        Uma familia de branquelos, olhos claros e muito bons de ritmo que garantiam o sucesso e a trilha sonora da trupe. Juntamente com seus irmãos, o cavaquinista Anselmo, os percusionistas Laurinho do pandeiro e Telminha Batucada, o Mário Gato, com seu violão e seu gogó,  "explodia" de balanço e suingue qualquer espaço por onde passassem. As danças e roupas estavam garantidas e a familia do bichano(Gato) bancava o ritmo.
       Ao chegar no aeroporto de destino carregando instrumentos, bandeiras do RS e do Brasil, mais uma porção de quinquilharias gaúchas o grupo foi chamando a atenção dos demais passageiros pela euforia. Abordados pela segurança do local, após as devidas identificações forma informados que o transporte que os levaria à Cidade do evento estava atrasado e demoraria algum tempo mais para o translado. Inquieta, Telminha, a única moça da banda e irmã do Gato, aproximou-se de um bar do aeroporto e comprou umas cervejas. Torrou o dinheiro das refeições daqueles momentos. Empolgado e com a cerveja na cabeça, o alemão Anselmo sacou o cavaquinho e começou a dedilhar um samba. O GATO que não era de deixar nenhum irmão mal, tirou o violão do estojo e saiu metendo samba. E o Laurinho?? "Explodiu" seu pandeiro de pancadas. Estava formada a batucada no aeroporto de Praga. Regada à cervejas e muito samba. As pessoas não entendiam nada, pois muitas haviam ouvido falar coisas do Brasil completamente diferente do que viam. Tinham a idéia de um país mestiço que adorava caipirinha e não branquelos de olhos claros na maior cervejada. Bandeiras brasileiras tremulando, passistas e bailarinas sambando, o grupo cantarolando músicas do Cartola, da Ivone Lara, do Lamartine Babo e de muitos brasileiros de destaque no cenário nacional. E assim prosseguiu a festa. As pessoas sorrindo, sambando e cantando, bebendo e celebrando, o estojo do violão aberto e as notas estrangeiras sendo depositadas. A alegria estava garantida e a janta também.
       Da forma como conhecemos (eu e o Prettin) a familia do Mário Gato e as folias no litoral gaúcho aquele espaço de pouso e decolagem nunca mais foi o mesmo.

Por Edinho Silva

Aromas natalinos



              Um passeio familiar deve ser valorizado a todo momento. Assim pensava o Bastião - o premiadíssimo mestre-sala da Unidos do Ouro Verde. Com a chegada do Natal o moço decidiu levar sua mulher Josi e as duas filhas pequenas, Marcinha (4 anos) e Dorinha (8 anos), a um passeio na cidade de Gramado visitar a cidade e curtir a decoração natalina do lugar.
              Economizando dinheiro para os presentes optaram em tomar um café colonial bem reforçado como única refeição do dia. Escolheram um local de farta e variada comida com muitos pães, cucas, doces, salgados, vinhos, sucos, leite, frios coloniais, etc. O Bastião "apavorava" tudo que vinha pela frente. Sem culpa, comia e bebia sem compaixão. Era salame com geléia de frutas, café com leite com costeleta de porco, pão colonial com ricota, bolos com presunto, omeletes, tortas com vinho. Uma mistura sem critérios. A Josi tentava alertá-lo: "Não exagere, homi!! O dia apenas começou". Uma das meninas, a Dorinha, tinha medo do bom velhinho e chorava muito quando estava próxima ao Noel. Naquele dia a garota prometeu aos pais que manteria a calma. Após algumas caminhadas e visitas a lugares turísticos, rumaram à  fábrica de brinquedos para apreciarem o local e providenciar uma foto com o Papai Noel. Chegando lá, encontraram um senhor simpático, vestindo uma bela roupa vermelha e sentado numa poltrona confortável.      
            Recebia a todos com muita cordialidade para a sessão de fotos. Depois de enfrentar uma fila, a familia do Bastião e da Josi, posicionou-se ao lado das meninas e do bom velhinho. Naquele momento, algo marcava um certo desconforto na barriga do Bastão. Algumas cólicas e o desejo de invadir um banheiro a qualquer momento. A situação era delicada, pois a fila estava grande e a menina acalmada. A oportunidade não poderia ser perdida. O pai e a mãe, cada um com uma das meninas posicionaram-se ao lado do Papai Noel para as fotos. Bastião, o nosso mestre-sala, não suportou a pressão e justamente na hora do clique, o cara não segurou a emoção. Soltou um "rojão" silencioso, mas com um cheiro insuportável que misturava pizza de atum, com torta de limão, suco de laranja, café com leite, cuca de uva, costeleta suina. Uma verdadeira bomba. O velhinho enfurecido não pôde fazer nada, apenas lamentar e assumir a culpa diante das  pessoas que se aproximavam da doce figura. O Carlito Trovão afirmou que, faltaram detalhes para a Fábrica de brinquedos fechar mais cedo naquele dia. E o Bastião?? Quase de cueca suja vou buscar um banheiro e uma farmácia mais próxima.

21 de set de 2011

Saudades de um sambista - parte 2



        Como mediador e consultor do Cantakgente recebi a tarefa de estimular o LEF a arregaçar as mangas e comprometer-se mais com os interesses do grupo. Precisava empurrá-lo, captar contratantes, ampliar agenda, enfim envolver-se mais com os interesses da banda. E o cara sempre paciente  afirmava estar no caminho certo. "Nossa hora iria chegar" - afirmava ele convicto. Um tempo depois o grupo reorganizou seus projetos pessoais e abandonou a "carreira artística", mantendo as relações de amizade com o cara.
          Era comum a promoção de reuniões do grupo e a convocação do Leandro para a participação de rodas de samba regada a churrascos. O moço era escalado para trazer o gelo da caipirinha, mas sempre chegava depois da carne assada. Logicamente, sem a encomenda. No mínimo, em 3 edições, teve que rumar às pressas para o postinho mais próximo para recarregar o estoque de cerveja por conta disso. A desculpa era sempre a mesma: "Bah, onde estava não tinha gelo e circulei a cidade toda à procura". Todos sabiam que era lorotinha, mas era impossível não aceitá-lo daquele jeito.
             Para atingir o grau de qualificação dos serviços da Produtora era preciso conter impulsos, projetar grupos novos, distribuir tarefas, pagar os músicos conforme a combinação, investir na credibilidade do, parceiros, distribuir tarefas e misturar “sutilmente” as classes sociais no cenário musical. Como assim? Agregar a imagem e simpatia do asfalto na linha de frente dos grupos à qualidade técnica da periferia na retaguarda (banda de apoio). Isto não é nada fácil. Para o LEF isso foi barbada. Talvez ELE nem tenha percebido, mas todos seus movimentos e ações na noite revolucionaram muitas coisas no cenário do entretenimento jovem. Conseguiu a motivar muitos alunos de escolas de tradicionais e seletas da cidade a batucar e providenciar seus pandeiros, seus cavacos e violões. Instaurando assim um “pagode chique que invadiu alguns espaços nobres da noite da Capital. Apresentou a efervescência das noites de Atlântida e Xangrilá a muito músico notável(?) da periferia. A fórmula era simples: em muitos casos, na linha de frente rostos bonitos e corpos sarados e na retaguarda um balanço e um suingue direto das rodas de samba mais populares da cidade. Testemunhei muita banda de apoio formada por músicos da Restinga e da Bom Jesus garantir o animado balanço dos jovens da Bela Vista e dos Moinhos de Vento. E nesta função o LEF era craque. Administrava vaidades, caprichos, “cachês”, agendas, pseudo-músicos, sambistas tradicionais, seguranças rebeldes, promoters soberbos, etc. Distribuir tarefas, acolher,  negociar valores era com ELE mesmo. Particularmente, tínhamos algumas divergências conceituais, porém o tempo e a disciplinada gestão dos seus negócios mostrou quem tinha razão.
        Quando o Nards compôs o “Voce vai ver, vou fazer e acontecer” deve ter se inspirado em alguma fala do LEF, pois o cara fez e aconteceu mesmo. Dono de casa noturna que desejasse "explodir" sua festa deveria buscar a parceria do Leandro e seu talentoso time. Depois disso já era meio caminho andado e a festa já ganhava forma, mulher bonita, gente alegre, fila na porta e animação. 
          O tempo não pára e infelizmente, não tive o prazer de brindar com café e conhecer as novas instalações da Produtora na companhia dele. Muitos convites foram feitos, porém nossas agendas não encontravam-se. Num dos últimos encontros que tivemos no belo Café Moinhos  confidenciou-me: “Gostou da casa, Edinho?? Tu viu que beleza?? Sou um sujeito de sorte, que coisa linda ter um sócio que alia amizade, bom gosto e fidelidade. Ter um sócio arquiteto é outro papo, né mesmo?? Rimos juntos e brindamos com cerveja gelada.
            Na concorrida despedida do cara, em meio a expressões emocionadas, muitas flores, a mistura de povo (do morro e do asfalto), rostos tristes, duas imagens marcaram: a condução do seu corpo pelos braços dos amigos e a execução de sambas na voz dos presentes. Interpretações emocionantes. 
           Que encontres no outro plano de vida, todas as condições possíveis para uma estadia tranqüila na colônia dos enfermos e a seguir, em outro espaço, os parceiros e as condições para fazer muita ZUEIRA no andar de cima.
            E nós ficamos por aqui com saudades e aguardando os próximos dias da noite pagodeira de Porto Alegre. Afinal, imagino  um cenário em que o brilho do LEF marcou espaços e um outro a partir de sua partida. 
        Enquanto redigia este texto, abri uma cerveja uruguaia bem gelada e ouvi a composição do Jorge Aragão (Moleque atrevido) "Respeite quem pode chegar onde a gente chegou..." tudo isso focado nas lembranças da  tua presença.   

Por Edinho Silva

20 de set de 2011

Saudades de um sambista - parte 1




           Quando  idealizei  o  Armazém  do seu Brasil imaginava uma  proposta  original e cheia de bom humor, porém é inevitável não registrar alguns “tropeços na caminhada”. Estou me referindo a partida precoce de um grande parceiro  de samba, cerveja gelada, de risos largos, lascas de costela  e de roda de amigos. Estou falando do Leandro LEF Silveira.
              aproximadamente 7 anos, por intermédio do grupo de samba e pagode  Cantakgente (Marcos Docinho, Rodrigo Bronquinha, Felipe Fifo, Fernando China, Fafaco, Luciano e o Diego Boy) uma galera universitária bacana que batucava um sambinha legal nos  finais de semanas conheci o moço. Era uma época de transição na cena musical e noturna de Porto Alegre. O samba saía dos condomínios, dos bares das Faculdades e ocupava espaços antes ocupado por pop rock, reggae, house e música eletrônica. Em São Paulo, por exemplo, Jeito Moleque e Inimigos da HP arrastavam milhares de fãs por onde passavam. Embora, sem conhecer a estrutura de bastidores destas bandas, seguia colaborando com meus amigos gaúchos vencedores da primeira edição de um Festival de samba e pagode de um conhecido jornal do RS. E o Leandro LEF onde entra nisso?? Já explico. Certo dia, na companhia do Marcos Docinho fui até o apartamento de um condomínio popular próximo ao Estádio Olímpico para ser apresentado ao Leandro. Na ocasião, produtor, empresário e, sobretudo, amigo do grupo. Como a carreira do jovem empresário estava na fase inicial o ambiente de trabalho me assustava um pouco. Era alguns banners espalhados, flyers de uma pequena casa da Venâncio Aires, instrumentos musicais pelos quartos, telefones tocando, pessoas circulando. Uma ligeira bagunça. O que me surpreendia mesmo era a ACOLHIDA e o CARINHO oferecido pelo responsável por tudo aquilo. Nunca faltou um cumprimento firme, uma palavra de afeto, um copo de coca-cola gelada, um sanduiche e uma boa conversa. Assim foi a forma que fui apresentado ao Leandro. Cheio de sono, com um copo de refrigerante na mão, um sorriso no rosto e alguma idéia para incrementar o Pagode Universitário dos pampas.             

19 de set de 2011

Quem corre por que quer, não cansa

                Carnaval de 1998 numa cidade do Interior do RS, bateria tinindo, as alas organizadas, microfones testados, harmonia afinada e o solista principal prestes a iniciar o “aquecimento” para entrar na avenida dos desfiles. Quem era ele?? Marcinho Gogó de ouro – nome de ba tismo:  Márcio Soares de Azevedo.
               Em meio a toda a agitação da concentração que os carnavalescos já conhecem, surgiu um senhor com cara de brabo, terno bem alinhado e pasta de couro sob o braço. Era um oficial de justiça que portava nas mãos uma folha de papel timbrado de uma movimentada Vara  de Familia (pensão alimentícia) do Estado e tinha como destinatário o Sr. Márcio Azevedo. Perguntou ao primeiro carnavalesco que viu pela frente sobre o tal moço. Coincidentemente, o Marcinho Goró, o próprio interessado foi a primeira figura a ser abordada. Na maior “cara de pau” o cara negou que conhecia. Prosseguiram-se as abordagens e nenhum sucesso. E o moço da Justiça circulava entre os carnavalescos. Perguntando a todos sobre o Sr. Márcio. E o Goró, quietinho, como se o assunto não fosse com ele.
             Alguns minutos antes do desfile da Escola iniciar, o desavisado diretor de bateria Miltinho Tamborim aproximou-se do Marcinho e em alto e bom som chamou o amigo pelo nome, despertando a atenção do “homem da justiça”.  No mesmo instante o “representante da lei” caminhou na direção do Marcinho Goró ou sr. Márcio Azevedo e este soltou para o alto o microfone, saindo às pressas rumo às arquibancadas e misturando-se entre as pessoas presentes naquele espaço. Cenas hilária e corridas sem rumo  em plena avenida. O Carlito Trovão jura que a escola desfilou legal com a presença do puxador de samba Gogó,  depois de muita negociação entre a autoridade e a diretoria da agremiação.